• Anissis Moura Ramos

Involução do humano por meio da tecnologia


Já faz alguns anos que se fala na desumanização do humano e parece que um dos fatores que tem contribuído muito para isso é a tecnologia. Ela veio para facilitar a nossa vida, desde que saibamos usar. As redes sociais tinham por objetivo aproximar pessoas, mas também fizeram com que cada um passasse a viver no “seu quadrado”, tornando as pessoas mais individualistas e criando a ilusão que são sociáveis, que têm vários amigos, porque acreditam que todos os contatos das redes sociais são seus amigos.

O celular que a cada novo modelo vem com mais recursos é utilizado para registrar tudo que acontece, para que possam postar nas redes sociais, passando a ideia para os outros de que são pessoas atualizadas, “descoladas” e que vivem intensamente.

Mesmo frente à tragédia a preocupação das pessoas é tirar foto para postar nas redes sociais. Vimos isso recentemente no acidente que matou Ricardo Boechat: as pessoas viram o avião cair, viram que tinha um homem na cabine do caminhão, mas ao invés de ajudar, estavam lá tirando fotos ou filmando para postarem nas suas redes sociais como notícia de primeira mão. Isso também vemos no teatro, em shows ou em qualquer lugar que haja um evento e que seja possível fazer uma selfie ou fotografar, fazer vídeo para postar.

É impossível não pensar o que está acontecendo com as pessoas, o que está fazendo com que mesmo frente a uma tragédia, o importante é fotografar ou filmar e não prestar um socorro à vítima. Será que a tecnologia (basicamente o celular) está contribuindo para o processo de involução do humano? Esse comportamento vai ao encontro do que várias pesquisas apontam sobre a necessidade que as pessoas têm de postar tudo nas redes sociais para se sentirem importantes, escondendo o complexo de inferioridade que muitas vezes toma conta de suas vidas. Postar a queda do avião do Boechat, provavelmente, fez com que as pessoas se sentissem importantes, afinal estavam presentes na hora da morte dele. Podendo provocar uma sensação de proximidade, de intimidade, elevando a sua autoestima, florescendo o sentimento de aceitação porque aumenta o número de likes, a pessoa se sente valorizada por dar uma notícia importante em primeira mão e vários outros sentimentos que se manifestam. As pessoas não pensam o que está por trás desse comportamento, tratam com naturalidade, como algo normal. A banalização da “normalidade” é algo que tem contribuído, também, para involução do humano, pois com isso perdeu-se o olhar e o respeito para com o outro. Não importa o que esteja acontecendo, se alguém está morrendo ou se se está sendo assaltada, o negócio é fotografar ou filmar.

Espera-se que as pessoas consigam repensar sua postura, seu comportamento, a fim de resgatarem o lado humano que está sendo esquecido. Filmar ou fotografar é bom, mas existem situações que o mais importante é socorrer o outro e não registrar o momento, que rapidamente será esquecido com o próximo flash.


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