Pé na tábua

 

Ao colocarmos que o nosso eu ou alma, como quiserem chamar, precisa de tempo, na realidade estamos dizendo que ela precisa ser cuidada, entretanto, no mundo atual, com a aceleração, o tempo está se tornando algo escasso e com isto, o economizamos aonde achamos que teremos um menor retorno, ou seja, na alma.

 

Quando o assunto é tempo, as ciências sociais e a filosofia referem-se, hoje, a temporalização do tempo, ou seja, dizem que decidimos sobre a duração, a sequência, o ritmo e a velocidade de atos, eventos e vínculos somente no período de sua execução – no próprio tempo – mostrando-nos que as nossas tomadas de decisões são pontuais.

 

No meio deste processo que vivemos no dia-a-dia de aceleração, deparamo-nos com a sombra desta, a estagnação. A estagnação muitas vezes foge do nosso controle, por exemplo, quando ficamos preso no trânsito, quando agendamos um horário com um profissional e este atrasa, ao atrasar um voo. Frente algumas situações, inclusive, a estagnação poderá fazer o indivíduo paralisar, como por exemplo, frente a uma situação estressante. Também tem pessoas que vivem estagnados ou paralisados, como disse um conhecido meu, outro dia, ao referir-se a uma amiga dele, “ela é um carro sem gasolina” e pior, tem pessoas que são um “carro sem gasolina”, de tão paradas. Nem tanto ao céu, nem tanto a terra, temos sempre que buscar o ponto de equilíbrio.

 

Porém, temos que considerar que a estagnação nem sempre ocorre só no mundo externo, mas no mundo interno também. As vezes de tanto acelerarmos, esquecemos do desenvolvimento da personalidade. Também pode se dar em função de um processo depressivo, devido a incapacidade da alma de focar sua energia em um objeto fixo, constante e recompensador e de desdobra-la ativamente.

 

Muitas vezes, o processo de aceleração se dá pela constante cobrança que a própria pessoa se faz, exige de si mesma desempenho máximo. Estão sempre tentando provar para si mesma através do sucesso que são capazes, que podem e por mais que façam coisas nunca estão satisfeitas, porque estão correndo consigo mesmo e se expondo a desafios, sem perceber que tudo isto não passa de uma grande necessidade de se afirmar. Quando questionadas, dizem não conseguirem conviver com o tédio e Pascal afirmava que “nada é mais insuportável para o ser humano do que a completa inatividade, do que não ter paixões, obrigações, distrações e tarefas. Então se dá conta da sua nulidade, seu abandono, sua insatisfação, sua dependência, sua impotência, seu vazio. Imediatamente surgira do fundo de sua alma o tédio e a escuridão, a tristeza, a preocupação, o desespero”. Na ânsia de fugir do tédio, muitas vezes, assumimos uma série de compromissos que não nos permite sobrar um tempo para dirigirmos um olhar para nosso eu, a fim de ver o que ele tem a nos dizer. Temos medo de escutarmos a voz da alma, de entrarmos em sintonia com o nosso eu e de acabarmos por nos decepcionarmos conosco mesmo. Sendo assim, aceleramos, porque esta é uma das maneiras mais eficientes de fugir do encontro com a nossa alma.

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