Será mesmo a pior crise da história?

15/03/2017

 

Ao escutar uma entrevista com o nosso presidente, outro dia, fiquei pensando qual o interesse que existe ao afirmar que estamos vivendo a pior crise da história. Claro que a crise ou a dor que vivemos no momento é sempre a pior, pois é a que estamos sentindo ou vivenciando, entretanto, ao aceitarmos esta afirmação corremos o grande risco de estarmos legitimando que o povo brasileiro não tem memória.

 

Vejam! Não estou negando que vivemos uma crise econômica/financeira, que temos um alto índice de desemprego, porém, quem viveu na década de 80 e 90 deve lembrar que também tivemos uma queda brusca no PIB; nas taxas cambiais e uma inflação altíssima que chegou a 1.037,53% na década de 80 e na década seguinte foi a 1.476,71%. Vivíamos, também, um momento de transição política, saíamos da ditadura para democracia. Tivemos vários planos financeiros – Cruzado, Cruzado II, Bresser e Verão. Foi uma época em que salários e preços foram congelados; foi implantado o sistema de gatilho salarial, que durou nove meses. No plano Cruzado II as tarifas públicas foram aumentadas. Teve um alto índice de desemprego e de falta de mantimentos.

 

Nessa época, cuidaram da economia do país Funaro, Bresser Pereira, Zélia Cardoso, Mailson da Nobrega.

 

Chegou a década de 90, com ela o governo Collor e as pessoas viram suas economias que estavam aplicadas na caderneta de Poupança serem confiscadas. Muita gente enfartou, teve AVC, se suicidou. Outros esperam até hoje que o judiciário libere estes valores.

 

Foi um período de grande perda para classe média; a partir de 1993 é que a economia estabilizou.

 

Por isto, é que precisamos pensar se a crise que estamos vivendo é realmente a pior crise econômica/financeira da história e qual o interesse do governo e dos veículos de comunicação de enfatiza-la. Será que esta não é mais uma maneira de desviar a atenção do povo a fim de não focar tanto nos escândalos políticos que aparecem todos os dias? Precisamos pensar e não permitir que façam esta tortura psicológica que estão fazendo e levando muitas pessoas ao desespero por não enxergarem nenhuma perspectiva em termos de futuro.

 

Sabe-se que o índice de inadimplência e endividamento é alto, porque ao liberarem o crédito para as classes de menor poder aquisitivo, não tiveram a preocupação de orientá-los, de mostrar os riscos existentes se fizessem uso inadequado do cheque especial, do cartão de crédito, dos financiamentos pessoais. Através desses recursos, as pessoas começaram a conseguir tornar os sonhos realidade. A casa própria, o carro, a viagem já não eram mais um sonho e sim algo que passou a fazer parte da vida destas pessoas. Hoje, no entanto, muita gente vive o pesadelo de ter que devolver o imóvel adquirido, o carro que está com busca e apreensão, porque acreditaram que conseguiriam pagar, não foram orientados da importância de um planejamento financeiro, não se deram conta das despesas que estariam agregadas ao valor da prestação.

 

O empréstimo consignado acabou com a vida financeira dos funcionário públicos e dos aposentados, sendo que estes muitas vezes pegaram dinheiro emprestado para seus familiares com o medo de serem abandonados se dissessem não. Hoje vivem a dor do abandono, sentem-se usados e endividados.

 

Vê-se que o próprio governo criou meios para que as pessoas se endividassem, por não ter criado um plano de educação financeira antes de liberar o crédito, para que as pessoas pudessem usá-lo de forma consciente. Muita gente se endividou por desconhecimento, por não saber gerenciar suas finanças; outros por quererem ostentar um status que não lhes pertence.

 

O crédito facilitado contribuiu para que as pessoas passassem a viver uma vida de ilusão, de faz de conta. Muitos falsos self afloraram, acreditando que podiam e podem tudo. Vê-se que para muitos a “ficha” ainda não caiu e continuam alimentando uma vida que não condiz com a sua realidade financeira. Permanecem com seus pensamentos mágicos, fazendo contabilidade de cabeça e sofrendo ao verem que o “mundo mágico” que haviam construído está desmoronando, desencadeando um sofrimento psíquico intenso que os leva a quadros de depressão, ansiedade generalizada, pânico, fobias e fazendo com que alguns vejam o suicídio como a única forma de solucionar o problema.

 

Viver sobre esta pressão é contribuir para o caos mental, daí a importância de voltar no tempo e lembrar tudo que já se vivenciou, de analisar se realmente estamos vivendo a pior crise econômica da história ou se estamos vivendo a maior crise política dos últimos tempos. Não dá para escutar as notícias e aceita-las como uma verdade única, faz-se necessário refletir, analisar, filtrar as informações para não adoecer emocionalmente. Não se trata de ser otimista ou de negar a crise, mas poder olhar de maneira racional para crise a fim de não se deixar paralisar por ela e poder criar estratégias para superá-la. Entrementes, observa-se que a maior crise que as pessoas estão vivendo é a crise pessoal, a dificuldade de saber quem realmente são, o que querem para suas vidas, em virtude de terem perdido seus referenciais por terem passado a viver a vida dos simulacros que criaram para si e hoje não conseguem mais identificar o que realmente é seu ou do seu simulacro. Infelizmente, esta é uma das realidades que se apresentam em nossos consultórios e que contribuem, também, para a crise financeira que está presente na vida de muitas pessoas.

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