O papel(ão) dos pais

05/04/2017

 

Percebe-se ao atender crianças que houve uma inversão de papéis, ou seja, os filhos mandam e os pais obedecem. Outro dia uma mãe me perguntou se a filha não teria direito de expressar sua opinião, respondi que sim, mas que cabia a ela o bom senso de seguir ou não a opinião da filha de oito anos de idade.

 

Percebe-se uma confusão de papéis nas famílias, em que ninguém sabe mais qual a sua função no núcleo familiar. Os pais que deveriam dar a educação, o exemplo, o limite para os filhos, já que são os primeiros modelos de identificação, preferem terceirizar a educação para as escolas, para os psicólogos, pedagogos. Gosto de ver que inflam o peito e demonstram uma grande satisfação ao projetarem para o profissional o seu sentimento de fracasso, dizendo que o trabalho dele não está dando resultado, demonstrando a sua total falta de crítica, de percepção, de limite e nos levando a entender com maior facilidade o funcionamento não apenas da criança, mas da família em que está inserida.

 

A criança só retrata em nossos consultórios o funcionamento familiar; as brigas;  discussões; os palavrões; as incoerência; as implicâncias; as intolerâncias; a falta de regras, entre tantas outras coisas.

 

Preocupa-nos ver a falta de limites que toma conta das crianças e adolescentes e o fato de isto ser compreendido por muitos como “liberdade de expressão”. A falta de limites, somada a falta do olhar das figuras parentais, a fórmula mágica de resolver problemas que a família transmite aos filhos desde o início da vida, são fatores que contribuem para o número significativo de jovens que na adolescência começam a fazer uso de álcool precocemente e muitas vezes com a anuência dos pais.

 

Um estudo realizado em 2015 e divulgado pelo IBGE aponta que o percentual de jovens que já experimentaram bebidas alcoólicas subiu de 50,3%, em 2012, para 55,5% em 2015; já a taxa dos que usaram drogas ilícitas aumentou de 7,3% para 9% no mesmo período. Também aumentou o número de jovens que relataram a prática de sexo sem preservativos, passando de 24,7% para 33,8%. Não dá para olhar para estes números e achar que é algo normal, temos que ver o que eles nos revelam, além de mostrarem que os adolescentes estão bebendo mais; que estão vivendo despreocupadamente; que estão se colocando em situação de risco, muitas vezes, sem ter crítica do que estão fazendo consigo e muito menos noção do risco a que estão se exponddo. E uma das leituras que pode ser feita é a negligência dos pais para com os filhos, a despreocupação para com os mesmos, é a falta de dizer “não”, de conversar e explicar as razões pelo qual não pode ingerir álcool e nem fazer uso de outras drogas, os prejuízos que estas causam ao organismo, mas para tanto, faz-se necessário que os pais deem o exemplo e tenham esta consciência, que suas falas não sejam vazias.

 

A falta de diálogo existente nas famílias; a história de cada um viver no seu espaço e com a sua tecnologia, também tem contribuído para a destruição de muitas família, levado muito jovens as drogas e também ao óbito. Permitir que um filho faça a ingestão de álcool e achar legal quando chega em casa embriagado, é endossar o processo de autodestruição do filho.

 

Outro ponto que tem contribuído muito para isto é a história de que os pais são os melhores amigos dos filhos. Este não é o papel dos pais; os pais precisam saber escutar, mas corrigir e advertir o filho quando necessário. Pais têm que dizer não aos filhos quando necessário, visto que o não gera a frustração e faz a criança ou o jovem pensar. Filho tem que respeitar os pais, assim como os pais devem respeitar os filhos. Os papeis precisam ser definidos dentro das famílias, os exemplos precisam ser dados. Não adianta dar um discurso e fazer exatamente ao contrário do que está dizendo.

 

Enfim, apesar de todo a evolução dos tempos, os pais ainda são os responsáveis pela educação dos filhos; continuam sendo os primeiros modelos de identificação deles e por isto o exemplo é fundamental. Precisam ter um olhar para os seres que colocaram no mundo, dando apoio e corrigindo quando necessário. Talvez assim, consiga-se reverter o número de jovens que faz uso de álcool e outras drogas; de jovens que se suicidam ou que andam pelas ruas como se fossem apenas mais um andarilho perdido no mundo. Ter filho é algo complexo e não tão simples como muita gente acha.

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