Órfãos de pais vivos

 

Quando falo em órfãos de pais vivos, não estou me reportando aquelas crianças em que os pais tiveram o “poder familiar” destituído, mas naquelas que dividem a casa com os pais durante a semana e que nos finais de semana, quando dá, convivem um pouco mais.

 

Por vezes, fica evidenciado que os filhos se tornaram um estorvo na vida dos pais, pois eles querem curtir a vida e não sabem o que fazer com o filho. Porém, se isto for pontuado à eles, negam. Os pais atuais não abrem mão de seus prazeres em prol dos filhos, eles podendo transferir a responsabilidade, o cuidado, a atenção para terceiros, fazem sem nenhuma cerimônia. Alguns acreditam que os avós têm obrigação de ajuda-los a cuidar e quiçá até dar um suporte financeiro.

 

As crianças não sabem mais o que é limite e respeito, pois os pais discutem com elas como se tivessem a mesma idade, não se fazendo respeitar. Essa ausência da figura de autoridade na vida da criança, acaba refletindo na escola, podendo ser identificado através da falta de respeito com os educadores. Afinal, ninguém os ensinaram a respeitar.

 

Fala-se muito sobre o quão problemático são as crianças e adolescentes, mas na realidade, eles só retratam o que vivem em seus lares. Essa falta do olhar das figuras parentais para com os filhos é que os leva, muitas vezes, a entrar no mundo da droga (lícitas e ilícitas), podendo até se tornarem infratores. Contribui, também, para aumentar as estatísticas de mortes entre jovens. O índice de suicídio entre jovens aumentou 10% nos últimos anos. As estatísticas apontam que 1,3 milhão de jovens morrem por conta de causas evitáveis ou tratáveis. Desde de 1995 aumentou muito o índice de suicídio entre os jovens. Entre 1996 e 2002, o índice de suicídio em São Paulo foi de 66% sendo os principais fatores de risco para o suicídio dos jovens, o afastamento dos pais biológicos, o divórcio dos pais, o suicídio dos pais, parentes próximos ou amigos.

 

Essa ausência dos pais na vida dos filhos, nos leva a questionar o que está acontecendo, porque o amor incondicional que deveria existir por parte dos pais para com os filhos, parece ter sido esquecido.  Vê-se que alguns pais dão total autonomia para os filhos desde muito cedo e outros protegem até mesmo na vida adulta, não o deixando se tornar independente.

 

O ideal seria que as pessoas antes de resolverem a ter filhos, pensassem as razões que os motivam a tê-los; se estão preparados e dispostos a abrir mão de algumas coisas em suas vidas; se está claro a importância das figuras parentais no desenvolvimento físico e psíquico dos filhos; se estão conscientes da responsabilidade que estão assumindo a partir da concepção devendo perdurar pelo longo da vida do ser que geraram.

 

Infelizmente, está não é a realidade que temos. Muitas pessoas engravidam sem querer, optam por ter filhos e depois os deixam em frente à televisão, dão o tablete ou o celular para a criança ficar quieta; não dão limites; deixam os filhos desde muito cedo sozinhos, tendo que se gerenciar; fazem todas as vontades para redimir a culpa que carregam consigo por não dar atenção; reclamam e se queixam dos filhos, deixando claro o arrependimento que carregam consigo por terem escolhido serem pais. Isso sem entrar no mérito dos casais que se separam e resolvem usar os filhos, fazendo alienação parental, para atacar o cônjuge.

 

Os filhos são reflexos dos pais, portanto, cabe aos pais a responsabilidade de educa-los, orientá-los e prepara-los para vida e não simplesmente tê-los e depois largarem no mundo, como se não os pertencessem. Filho precisa do olhar, da atenção, orientação, carinho e afeto dos pais, sempre. Caso não tenha disposição, não queira ou o momento de vida não permite atender a demanda que o filho traz consigo ao nascer, é interessante avaliar se deve tê-lo ou não, pois não é justo colocar uma criança no mundo para ser órfão de pais vivos.

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